terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sobre a fé

foto: Janete Kriger

Quando eu era pequena, minha mãe trabalhava fora e eu passava minhas tardes no apartamento da minha vó. Eu passava meu tempo lendo gibis, escrevendo na máquina de escrever, decorando as capitais do mundo, enfim... coisas que crianças normais (não) fariam. Era comum eu estar na cozinha, o interfone tocar e a vó pedir pra eu ficar sentada quietinha ou ir pra sala enquanto chegava a visita. (Não, ela não era traficante). Ela preparava o tijolo, a vela e a xícara com água benta. Era hora da benzedura.


Enquanto ela falava as rezas baixinho, fazendo gestos com a vela, eu me segurava pra não rir. Nunca entendi aquele monte de coisas que ela falava. Achava graça naqueles sussuros indecifráveis. Benzer das bichas? Cobreiro? Bugre? Vai entender... Sei que tempos depois, era comum aparecerem presentes, principalmente frutas, legumes. Tudo isso como forma de agradecer a graça atendida, o mal que foi curado.


Os anos passaram, minha vó não está mais aqui, mas tive uma oportunidade de entender melhor algumas coisas sobre ela. Acabei de sair da estreia do documentário A Sagração do Cotidiano Benzeduras, dirigido pela Janete Kriger, roteiro da Alessandra Rech e produção da Spaghetti Filmes. Tive a alegria de ajudar na produção desse trabalho, visitar os personagens e entender um pouco mais sobre essa prática.


O documentário é um registro de uma tradição que até hoje existe, mas que aos poucos tende a acabar. Seis benzedeiros contaram e mostraram um pouco sobre essa rotina de "curar através das palavras". Em sua grande parte, senhoras que aprenderam muito cedo a benzer e hoje não tem a quem repassar esses conhecimentos pela falta de interesse. As pessoas aparecem sempre por indicação de alguem, na esperança de curar males que nem médicos consguiram. Nunca se cobra, as pessoas doam se quiserem, o que quiserem. A missão dessas pessoas é fazer o bem com palavras.


Para quem perdeu a primeira sessão, tem repeteco no domingo, dia 9, às 18h30min, na sala de cinema do Centro de Cultura Ordovás.


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sobre a gripe oinc

Caxias do Sul não tem outro assunto: só se fala na gripe A.
A Secretaria Municipal de Saúde divulgou no final da tarde de ontem diversas recomendações para a população. Uma das que mais gerou dúvidas foi o uso das máscaras. Quem deve usar? Onde? Por quanto tempo?
Por enquanto, o uso dessas máscaras só é indicado para ambientes fechados, onde há atendimento ao público, como bancos e hospitais. Alguns motoristas de ônibus também estão aderindo ao uso. Mas esse novo acessório, convenhamos, não é dos mais bonitos.
A designer americana Irina Blok criou máscaras com design original para quem gosta de ser "fashion". Ou seja, até na crise a criatividade sempre tem espaço.

Fashion até em epidemias globais

domingo, 5 de julho de 2009

Sobre a síndrome dos 20 e tantos

Recebi esse texto por e-mail. Não tem autor, nem nada e geralmente não curto esses textos com tom de 'autoajuda'. Mas coloco aqui porque acho impossível não se identificar.

"A síndrome dos 20 e tantos"
A chamam de 'crise do quarto de vida'.

Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos. Se dá conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado(a) etc..

E cada vez desfruta mais dessa cervejinha que serve como desculpa para conversar um pouco. As multidões já não são 'tão divertidas'… E as vezes até lhe incomodam. E você estranha o bem-bom da escola, dos grupos, de socializar com as mesmas pessoas de forma constante.

Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo. Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas que conheceu e que o pessoal com quem perdeu contato são os amigos mais importantes para você.

Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor. Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto pôde lhe fazer tanto mal. Ou, talvez, à noite você se lembre e se pergunte por que não pode conhecer alguém o suficiente interessante para querer conhecê-lo melhor. Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar. Talvez você também realmente ame alguém, mas simplesmente não tem certeza se está preparado (a) para se comprometer pelo resto da vida.

Os rolês e encontros de uma noite começam a parecer baratos e ficar bêbado(a) e agir como um(a) idiota começa a parecer realmente estúpido.
Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotado(a) e significa muito dinheiro para seu pequeno salário. Olha para o seu trabalho e talvez não esteja nem perto do que pensava que estaria fazendo. Ou talvez esteja procurando algum trabalho e pensa que tem que começar de baixo e isso lhe dá um pouco de medo.

Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que não quer. Suas opiniões se tornam mais fortes. Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas à sua lista do que é aceitável e do que não é.

Às vezes, você se sente genial e invencível. Outras… apenas com medo e confuso (a). De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando.

Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro… E com construir uma vida para você. E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela. O que, talvez você não se dê conta, é que todos que estamos lendo esse texto nos identificamos com ele. Todos nós que temos 'vinte e tantos' e gostaríamos de voltar aos 17-18 algumas vezes.

Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça… Mas TODOS dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de aproveitá-la por causa dos nossos medos… Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro. Parece que foi ontem que tínhamos 16…

Então, amanha teremos 30?!?! Assim tão rápido?!?!
FAÇAMOS VALER NOSSO TEMPO… QUE ELE NÃO PASSE!
A vida não se mede pelas vezes que você respira, mas sim por aqueles momentos que lhe deixam sem fôlego...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sobre formar jornalistas (II)

Confesso pra vocês que não lembro porque cargas d'água eu assinalei a opção "jornalismo" quando eu fiz vestibular. Juro, não lembro. Sou super envergonhada pra falar com estranhos, super insegura pra expor minha opinião, minhas notas em português não chegavam a 10, mas com certeza eram melhores que as de química, física e matemática.

Mas a escolha foi feita. Veio o vestibular, o listão, a matrícula e lá vamos nós.

Entre dúvidas, quase desistência, etc, etc, já foram quase seis anos. Gente... SEIS ANOS! Todo esse tempo eu investi em algo que, confesso, ainda não tenho certeza se vou seguir quando formada. E não foi só dinheiro, foi tempo, foi estudo, foi muita coisa. E passei todo esse período reclamando muito. Reclamando da qualidade do curso, dos colegas, dos professores, de tudo. Tudo era motivo pra descontentamento. (Ou seria rabugice da minha parte?) Sempre achei a maior várzea do mundo. Digo até hoje que desaprendi a estudar na faculdade de jornalismo. Muita coisa foi levada "nas coxas", outras tantas faltou empenho da minha parte e vontade de alguns professores.

Ano passado ou retrasado, nem lembro mais, em uma aula de radiojornalismo, recebi um texto - se não me engano do Eduardo Meditsch - daqueles gigantes, que não dá vontade de ler e entender. Mas fiz um esforço. Li e reli umas três vezes. Só ali eu percebi a importância do jornalismo. A carga de responsabilidade que um profissional desses tem: o compromisso social em apurar e relatar fatos com veracidade e de uma forma universal de entendimento. Parece pouco, mas não é não. Novamente, com o argumento de que eu não sirvo pra isso, que é muita pressão, é muita coisa pra minha pobre cabeça, etc, etc, ameacei largar o curso pela 298372187356ª vez. Mas, com o mesmo e antigo argumento de que eu não sabia o que fazer, continuei.

Hoje faltam apenas 15 cadeiras para eu conseguir meu diploma. Ou seja: minha incerteza só piorou. Com a decisão tomada pelo STF na última quarta-feira, decretando a não-obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, fiquei confusa. E agora, José? Ou melhor, Gilmar? Afinal de contas... esse pedaço de papel que eu estou buscando serve pra alguma coisa?

Olha... primeiro que, olhando pra trás, não é só o pedaço de papel. A formação que eu tive, mesmo que em determinados momentos a instituição foi falha e a minha busca rasa, não foi em vão. Ora veja, estou até tomando partido em algo! Saí de cima do muro e estou dizendo: quero que esse diploma tenha um valor, tenha um diferencial.

Sei que isso irá contar de qualquer forma no mercado. Sei também que a competência do profissional vale mais (porque todo mundo sabe que temos analfabetos funcionais com o diploma pendurado na parede). Mas abrir esse mercado - que já está saturado - acaba piorando a situação que já vivemos hoje: a do compromisso com a informação correta e com a forma que é passada. Regulamentar o exercício da profissão já era difícil. Agora, acredito que vai piorar nessa "terra de ninguém".

Ainda não sei se vou exercer a profissão. Mas se isso ocorrer, com certeza sei como. E mesmo com todas as falhas no ensino - um outro assunto a ser discutido - posso dizer que devo muito disso à faculdade, aos professores e aos colegas. Até porque, a gente aprende não só o bom como o mau jornalismo. E aí sim, vai da ética de cada um.

O assunto é extenso e acabei não colocando nem metade do que queria expor. Há muitas divergências, excessões e etc que outra hora talvez eu coloque aqui. Mas por enquanto a discussão continua e a manifestação também.

Sobre formar jornalistas (I)

Tá rolando agora no MTV Debate uma discussão sobre o diploma de jornalismo.

Depois, faço minhas considerações.

Até!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sobre as pequenas coincidências da vida


Se li mais de 5 livros sobre jornalismo durante esses anos de faculdade estarei mentindo. Amo ler. Estou sempre lendo. Até bula de remédio. Mas livro de reportagem, só li o do Pedro Bial (sim sim, vou ler Rota 66 e Abusado algum dia, eu prometo!). Não que eu não goste, mas sempre aparece algo mais interessante na frente. As pessoas adoram me emprestar ou dar livros. Aí, esses sempre tem prioridade de leitura.

No início do an
o ganhei do meu Excelentíssimo um desses livros-reportagem. Como era de história, tempos da ditadura, etc., ele acabou conquistando o próximo lugar na minha lista de livros a serem lidos. Há mais ou menos um mês comecei. Como só leio no ônibus ou antes de dormir, estou ainda na metade. Ia comentar sobre ele só quando terminasse (e talvez faça isso quando eu acabar). Mas essas coincidências da vida me levaram a falar dele antes.

"O Seqüestro dos Uruguaios" do Luiz Cláudio Cunha é um relato sobre os tempos da ditadura, tendo como matriz o sequestro de Lílian Celiberti e Universindo Dias em Porto Alegre. Um caso de fracasso da Operação Condor em que o jornalista acabou não sendo só relator mas testemunha do fato. Minha primeira surpresa: o escritor é caxiense. Mais um ponto para despertar meu interesse [gaúcho que é gaúcho
é bairrista no seu íntimo... ui ui ui].

Hoje teve palestra na UCS. [Como de praxe, apareceu uma dúzia de estudantes de jornalismo, dos duzentos e tantos. Incrível como, no geral, estudante de jornalismo da UCS odeia palestra. Só vai quando é cobrado em aula. E isso é assim desde as antigas, segundo os velhos formados. Caso pra se estudar.]
Enfim, o convidado de hoje é o editor de fotografia da ZH, Ricardo Chaves, o "Kadão". Peraí.... Ricardo Chaves? Já li em algum lugar.... Putz! É um dos caras que está no livro, que participou da história toda!

Ok, podem não achar grande coisa. Mas acho muito bacana quando acontece essas pequenas coincidências da vida. E o cara por si só é uma figura: na faixa dos 60 anos, barbudo, óculos, suspensório, cachimbo,
daqueles que adoramcontar um bom 'causo'. (Se quiser conhecer mais da vida dele, no Coletiva.net tem um pouco da biografia). Ele clicou momentos importantíssimos dos últimos 40 anos do Brasil. Pra quem curte fotojornalismo, foi uma baita aula. E ainda, ao conversar com ele sobre o livro, era empolgante, pois ele já ia puxando mais uma dezena de outras histórias. É nesses raríssimos momentos que não sinto tanto arrependimento por ainda estar por essas bandas.

Foto: Jefferson Bottega